
Um programa de Economia não pode ser comercial. O registo é jornalístico. O texto rococó-roco-barroco-adjectivado. De cima do salto das duas cadeiras incompletas vos digo que: como o sal é inimigo do coração o adjectivo é inimigo da informação. A hipocrisia dos registos supostamente isentos que sobrevivem de patrocínios e a comunicação baseada na propaganda subliminar mal disfarçada é visível a olho nu. Para os mais resistentes aqui ficam uns rabiscos:
Coloquem um jornalista a gravar as seguintes frases:
-10% é o crescimento que a Renault prevê para as suas vendas em Portugal neste ano de 2008, contando para isso com a ajuda do lançamento no nosso mercado da sua marca «low cost», Dacia. (Jornalista)
- A Renault está em
alto crescimento. Conquista um nicho de mercado, as vendas aumentaram
francamente na ordem dos 10%. Contam já com a ajuda do
esperado lançamento no nosso mercado da sua marca «low cost», Dacia. (Jornalista da TVi)
Na crónica que se segue fazem-se referências a várias marcas e serviços. São as marcas e os serviços a quem devo grande parte da alegria da minha vida. São muitas. Não sei se isto é ou não publicidade. Sei é que estou a dizer a verdade.
As referências que farei às marcas e aos serviços a quem estou grata não foram pagas nem encomendadas nem sugeridas. Menciono-as por gratidão. Devo-lhes muito. Mais do que paguei por elas. Nalguns casos, estaria disposta a pagar uma pequena quantia em dinheiro pelo prazer de mencioná-las.
Obrigado, sim? Não sou como os filisteus. Nenhum produto me trouxe o que me trouxeram os livros de Beckett ou de Goethe ou do Pedro Paixão. Mas também não sou parva. Há muitos escritores de quem eu gosto que contribuíram menos para a minha felicidade do que certos produtos como, por exemplo, a TV HD, o Stresstabs, o vinho verde ou a Custo. Trocaria o usufruto vitalício de qualquer destas coisas pela impossibilidade de ler quaisquer daquelas obras. É horrível, não é? Mas é verdade. E eu tenho de dizer a verdade, mesmo que fique mal vista.
O dever do jornalista é dizer o que sabe. No caso do colunista, o que acha. Para mim não há diferença entre dizer bem de um filme e dizer bem de um sabonete. Se posso opinar que vale a pena ver o Transformers porque não poderei opinar que o Pears é um excelente sabonete e que vale a pena tomar banho nele? É publicidade? Para o Transformers também é preciso gastar dinheiro e beneficiar certas empresas para vê-lo, mas ninguém diz que é publicidade.
Porquê? Porque é arte? Esqueçamos o problema da definição, que só por si complicava as coisas. Finjamos que sabemos o que a arte é. Sendo assim sei que a Lídia Jorge é escritora e escreve romances que fazem parte da nossa literatura. Sei também que tem os seus admiradores. Eu não gosto, mas admito que tenha mau gosto. Sou é forçada a dizer esta verdade: que tenho muito mais respeito pela empresa que produz o leite Vigor. Aliás, para ser sincera, tenho mais respeito e acho que fazem mais falta à nossa sociedade os iogurtes Danone (de que gosto pouco) do que toda a obra literária e jornalística da Lídia Jorge.
O que interessa na vida não é distinguir o que é artístico do que é comercial, nem o que é jornalístico do que é publicitário e a razão não é por cada vez se confundirem mais. O que interessa é procurar distinguir o que é bom do que é mau e o que é verdade do que é mentira. O facto de ser impossível saber estas coisas com certeza não torna o objectivo menos nobre.
Já se sabe que tudo depende de tudo e que cada um tem a sua opinião mas, mesmo assim, há verdades mais verdadeiras que outras. É verdade, por exemplo, que a comida para gatos da marca Whiskas é, segundo a opinião dos meus dois gatos abandonados, melhor do que a comida da Felix. É também verdade que um bom carpinteiro vale mais que um mau advogado, um bom contabilista mais que um matemático medíocre e um bom pintor de tabuletas mais que um péssimo poeta. Ou seja: não é por aquilo que as coisas calham ser (filmes ou marcas de jeans, profissões artísticas ou comerciais, notícias ou opiniões) que são mais ou menos susceptíveis de terem valor.
Mas também é verdade que, como restaurante quase português, o McDonalds tem, na minha opinião, um papel mais importante na nossa cultura que os romances da Lídia Jorge. (Peço desculpa a esta escritora pela insistência – não é alguém com quem eu embirre especialmente). Na minha opinião, seria pior que se perdesse a maneira de fazer os hamburgers que são servidos no Mc do que se se perdesse a maneira de escrever da Lídia Jorge.
Acho obsceno que eu possa dizer, como jornalista, que o professor Cavaco Silva é o melhor Presidente da República deste século, mas não possa dizer que a melhor manteiga portuguesa é a Atlântida. Acho obsceno que os jornalistas se pronunciem livremente sobre a política, que tem consequências fundamentais para a nossa vida comum, mas que se coíbam de confessar aos leitores se preferem o serviço da Tvcabo ou da TvTel. Quando vejo, por exemplo, o espaço e a atenção que se tem dedicado ao BE e ao Os Verdes ao longo dos últimos anos, pergunto se não teria sido mais proveitoso e honesto aproveitar para publicitar o Hotel do Buçaco, ou o restaurante dos Leitões na Mealhada ou a Água do Luso? Há milhares de excelentes instituições portuguesas, de carácter comercial ou não, que não só não têm dinheiro para comprar publicidade, como podem morrer sem ela. São editoras, sapatarias simpáticas, fabricantes de bagaço, costureiras, tipografias, tascas, explorações agrícolas, industriais de calçado, companhias de táxis, lojas de segunda mão, viveiros de trutas… e não acaba.
No entanto se eu, como jornalista, me limitasse a publicitar as marcas e empresas pobres também estaria a faltar à verdade. E as ricas? Quero lá saber se a Lacoste gasta milhões de francos em publicidade todos os anos. Fabricam óptimas camisas de ténis. Como camisas são tão boas como a água-ardente fabricada pelo meu falecido avô que não tinha muito dinheiro para gastar em publicidade. Tanto um como o outro merecem o meu apoio. Igualmente.
O dever do jornalista é dizer o que julga saber. Se, por razões anticomerciais, não revela que achou excelente um acontecimento qualquer, está a exercer sobre si mesmo uma espécie de censura. O mal da censura é sempre o mesmo – uma vez que se aceita a sua existência é-se obrigado a discutir onde começa e onde acaba. As teorias do lápis azul.
Sobre as grandes causas fala à vontade, quantas vezes com sobranceria e ignorância. Mas não é capaz de confessar que gosta de Chiclets. Promove políticos que vêm a mandar na nossa vida sem pensar duas vezes no que está a fazer, mas recusa-se a promover uma marca de pastilha elástica, que não afecta a nossa vida em quase nada.
Este pudor anticomercial é uma forma de censura. Não poder falar em marcas é um atentado à liberdade de expressão.
Pensar que essa liberdade convida à corrupção é irrelevante. Os mentirosos hão-de ser sempre mentirosos e os corruptos hão-de sempre ser corruptos. São os jornalistas que mentem e manipulam a informação política que são perigosos. Não são os que dizem bem (e justamente) do hipermercado Feira-Nova.
O mundo é muito grande e tudo faz parte dele. Parece um truísmo, mas é um tabu. Não se pode falar de muitas coisas. Esse silêncio acaba por dar maior poder à publicidade. Se é verdade que uma grande campanha consegue (temporariamente!) impor, por exemplo, um iogurte merdoso, levando os consumidores a comprá-lo em vez de iogurtes melhores, esse efeito deletério(prejudicial) deve-se sobretudo à censura anticomercial que reina no jornalismo. Os jornais que seriam capazes de assistir à falência de bons fabricantes de iogurtes, para não lhes fazerem publicidade gratuita, ao mesmo tempo que recebiam o dinheiro pago pelo fabricante merdoso, estariam a cometer uma imoralidade. Calando-se, faltariam à verdade. É como se se vendessem.
Quem diz a verdade nunca se vende. A ideia de eu me vender à Custo, sobre a qual escrevi um artigo é de morrer a rir. É de rir porque nunca me passaria pela cabeça dizer senão bem da Custo porque a Custo é mesmo uma boa linha. Mas é de morrer a rir porque comete a suprema arrogância de julgar que uma jornalista como eu é superior, como jornalista e apreciadora de moda, ao Custo como designer! Nem a Custo precisa de me comprar nem eu sou ninguém, como entendedora do assunto, para ser sequer tida ou achada. Quem sou eu, a mera Patrícia, para estar a pronunciar-me sobre uma tão esplêndida colecção?
Seria o mesmo dizer que as motas da BMW são muito boas, ou que os jeans da da Levis duram que se fartam ou que a Água das Pedras é boa para as ressacas ou que os isqueiros Zippo nunca falham ou que a Samsung fabrica boas televisões. Ao dizer estas verdades banais não só sinto que não me estou a vender como tenho a vergonha de me perguntar «Mas quem sou eu para estar a felicitar a Samsung?» Quando se diz a verdade não custa tanto ver o valor do que se está a dizer. Os jornalistas estão convencidos que as empresas querem «comprá-los» e porque são – simplesmente – uns convencidos.
Se a Lee me pagasse 10o mil euros para escrever um anúncio explicando que eram melhores que a Levis seria capaz de aceitar, porque é muito dinheiro. Mas ficaria cheia de vergonha de mim mesma. E não aceitaria nem 500 mil euros da Tiffosi!
As marcas que alistei tornaram a minha vida mais fácil de suportar. Recomendo-as absolutamente. Não fiz a lista para provocar. Fi-la para agradecer. O mundo é um sítio complicado e nem sempre é simples determinar, por exemplo, se foi maior a influência na literatura norte-americana do escritor Scott Fitzgerald ou do bourbon Jack Daniels. Não gosto nem de um nem de outro, mas tenho de respeitá-los (e, ainda por cima, acho que foi mais importante o Jack Daniels).É tudo muito mais difícil do que se pensa. Seria bom, seria, um mundo arrumadinho e subdividido como existe no cérebro dos jornalistas bons e bem-intencionados como é o caso do Miguel Sousa Tavares. É por haver regras do que se pode e não pode dizer que é mais fácil falar. Reduzem-no à insignificância da nossa medida. Se não posso mencinar bebidas alcoólicas ou recomendar medicamentos que só podem ser vendidos com receita médica, por não ser deontológico (quanto mais mencionar as duas ao mesmo tempo), já não preciso de pensar se devo ou não correr o risco de dizer que misturar um Lexotan de 3 miligramas com um gin-tónico e Schweppes provoca uma grande sensação de bem-estar.
Esta frase é totalmente irresponsável. Sei lá se há algum maluco que me está a ler e que decide experimentar e depois acaba no hospital. Mas é verdade. Se torno pública esta informação é porque julgo sinceramente que é útil. Vindo de quem vem, vale o que vale: quase nada. Desde que os leitores tenham a inteligência de me reduzir à minha insignificância, porque é que não hei-de dizer aquilo que penso? Os comentadores públicos que se coíbem e censuram, que medem as palavras, que meditam nas consequências do que dizem, que têm a pretensão de serem pedagógicos faltam à verdade e faltam-nos ao respeito.
Na volta são apanhados pelo radar.