quinta-feira, 8 de novembro de 2007

Brega & Chic - Paula Bobone Revisited


Os bons modos, sopas e descanso.

Já me estão a cansar…Parem lá com a mania de que digo muitos palavrões, caralho! Gosto de palavrões! Como gosto de palavras em geral. Acho-os indispensáveis a quem tenha necessidade de dialogar… mas dialogar com carácter! O que não se deve é aplicar um bom palavrão fora do contexto, quando bem aplicado é como uma narrativa aberta, eu pessoalmente encaro-os na perspectiva literária! Quando se usam palavrões sem ser com o sentido concreto que têm, é como se estivéssemos a desinfectá-los, a torná-los decentes, a recuperá-los para o convívio familiar. Quando um palavrão é usado literalmente, é repugnante.
Dizer:”Tenho uma verruga no “caralho”é inadmissível. No entanto, dizer que a nova decoração adoptada para CBR 900’2000 não lembra ao “caralho”, não mete nojo a ninguém. Cada vez que um palavrão é utilizado fora do seu contexto concreto e significado, é como se fosse reabilitado. Dar nova vida aos palavrões, libertando-os dos constrangimentos estritamente sexuais ou orgânicos que os sufocam, é simplesmente um exercício de libertação.

Quando uma esferográfica não escreve num exame, “ai a grande puta… não escreve!” desagrava-se a mulher que se prostitui.

Em Portugal é raro usarem-se os palavrões literalmente. É saudável. Entre amigos, a exortação “Não sejas conas”, significa que o parceiro pode não jogar um caralho de qualquer merda. Nada tem a ver com o calão utilizado para “vulva”, palavra horrenda, que se evite a todo o custo nas conversas diárias.

Pessoalmente, gosto da expressão “É fodido...” dito com satisfação até parece que liberta a calma! Do mesmo modo, quando dizemos “Foda-se”, é raro que a entidade que nos provocou a imprecação seja passível de ser sexualmente assaltada. Por exemplo: quando Mário Transalpino “descia” os oito andares para ir à garagem buscar a mota e verificava que se tinha esquecido de trazer as chaves…”Foda-se!!!”, não existe nada no vocabulário que dê tanta paz ao espírito como um tranquilo ”Foda-se…!!”. O léxico tem destas coisas, é erudito mas não liberta. Os palavrões supostamente menos pesados como “chiça” e “porra”, escandalizam-me. São violentos.

Enquanto um pai, ao não conseguir montar um avião da Lego para o filho, pode suspirar após três quartos de hora “ai o caralho…” sem que daí venha grande mal à família, um “chiça” sibilino e cheio, pode instalar o horror. Quando o mesmo pai, recém-chegado do Kit- Market ou do Aki perde uma peça para a armação do estendal de roupa e se põe de rabo para o ar a perguntar “onde é que se meteu a puta da porca….?”, está a dignificar tanto as putas como as porcas, como as que acumulam as duas qualidades.

Se há palavras que realmente repugnantes, são as decentes como “vagina”, “glande”, “vulva” e “escroto”. São palavrões precisamente porque são demasiadamente inequívocos …Para dizer que uma localidade fica fora de mão , não se pode dizer que “fica na vagina da mãe” ou no “anûs de Judas”. Todas as palavras eruditas soam mais porcas que as populares e dão menos jeito! Quem é que se atreve a propor expressões latinas como “fellatio” e “cunnilingus”? Tira a vontade a qualquer um!

E seria tremendamente injusto não registar aqui a expressão de maior poder de definição do Português Vulgar: "Fodeu-se!". E a sua derivação, mais avassaladora ainda: "Já se fodeu!". Conhece-se definição mais exacta, pungente e arrasadora para uma situação que atingiu o grau máximo imaginável de ameaçadora complicação? Expressão, inclusive, que uma vez proferida insere o seu autor num providencial contexto interior de alerta e auto-defesa.

Os palavrões são palavras multifacetadas, muito mais prestáveis e jeitosas do que parecem. É preciso imaginação na entoação que se lhes dá. Eu faço o que posso.

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