Um quarto de século na pirataria e vinte anos a apanhar com a melhor brisa na cara.
Crescemos com o cheiro do verde e a cor da terra, ganhávamos o dia se apanhássemos um ramo de violetas. Mergulhávamos em àgua gelada, brincávamos com as rãs, fugíamos dos sapos, escondíamo-nos no pinhal e procurávamos as raposas. Dominávamos as vacas como ninguém, fitávamos os coices e alimentávamos as crias. Ninhadas de gatinhos e famílias de pintainhos. Os combros escondiam morangos, os silvados amoras. Os grilos faziam cri-cri na gaiola verde florescente, as salamandras debaixo das ervas e as joaninhas na palma da mão.Em busca de musgo no Natal, feno na Páscoa e o carvão desenhava os bigodes no Carnaval. Vento com cheiro de vento. Chuva com sabor a chuva , àgua fresca e lareira no Inverno. Éramos piratas, princesas, cowboys, polícias e ladrões. Éramos meninos e meninas. Diamantes em bruto. Sentíamos tudo, tocávamos tudo, partilhávamos o tudo. Maçãs da árvore do vizinho, tristezas, carros de rolamentos e brinquedos novos. Éramos pequeninos com sonhos grandes. Os prédios estavam longe, os prazeres mundanos entravam-nos em casa pela janela da televisão, as notícias a preto e branco. Pouca tecnologia e muita imaginação. Pai muito doente, hospital, super-mãe e super mulher. Não havia video, vhs ou cinema, muito Michael Night e McGyver. Senhoras que falavam bem na televisão, senhores do telejornal e imitações de anúncios da rádio. O caule das couves como microfone. O mundo à nossa espera. Pessoas más, amigos ainda piores. Os mundanos apelidando-nos de provincianos, mas existem os bairristas e os provincianos. Bairrista defende o local em que se encontra menosprezando os demais, já o provinciano nunca nega a sua origem. Querer mais não é pecado. Menosprezar os demais é. Na terra aprende-se a viver, a saber que cada coisa cresce no seu lugar e que as ervas daninhas impedem as plantas de crescer. A ter poder de encaixe, já que cada pedaço de madeira obedece a uma determinada linha de pensamento para se manter seguro. Aprende-se a amar as coisas simples e a distinguir os cogumelos venenosos. Falem mal dos burgueses, de quem ainda não cresceu e magoem o vosso próprio pé.
segunda-feira, 3 de setembro de 2007
Subscrever:
Enviar feedback (Atom)

Sem comentários:
Enviar um comentário